“Ei-los que partem, e ei-los que chegam.”
Foi no que pensei este Natal.
Naquela reunião de tantos e tão queridos, a nostalgia da matriarca ausência, contrastava com o sentimento meigo de imaginar na barriga da mãe uma pequena bebé a provar pela primeira vez aquele calor.
Assim, lembrei-me de fazer perdurar algumas tradições para a pequenina que vai nascer e para todos os outros que virão.
Para eles começo assim um pequeno compêndio de receitas da família.
Coscorões: que no Alentejo chamam filhoses são presença inevitável. (A receita está anotada, prometo que em breve a colocarei aqui.)
Os canudos : segundo sei, os canudos como a minha avozinha sempre fazia para o Natal, são tradição em algumas famílias daquela zona do Ribatejo. De pequena guardo memórias daquele cheiro a doce de abobora e a fritos, entrecruzado com o cheiro a chuva e humidade. Nas nossas brincadeiras e correrias passávamos pela cozinha sempre aberta onde se estendia a massa já levedada sobre a mesa lisa ou a bancada de mármore esbranquiçada pela farinha. Uma pilha engraçada de lustrosas canas cortadas em cilindros de mais ou menos cinco centímetros, chamava-nos sempre a atenção. Já tinham perdido à muito tempo o tom de cana e brilhavam agora como um soalho de carvalho envernizado. Sempre me intrigou o numero de natais em já tinham servido. A avó dizia que algumas tinham sido cortadas pelo avô, em anos tão idos, nos quais eu não tinha sequer sido pensada, as mais claras já foram feitas na oficina do tio, ao lado do forno e da casa de jogos. Ainda assim eram difíceis de distinguir porque o brilho quase lhes ocultava a cor.
Uma a uma iam sendo enroladas com uma generosa camada de massa, de forma tão automática que quase não deixava reparar o quão cuidadosa era. Depois passavam para a piscina de óleo onde boiavam, tal e qual como os iscos das canas de pesca, ou como os nossos peixinhos de brincar na banheira. Faziam “ploc” ao cair e ali ficavam até a massa ganhar cor e se desprender da cana. Uma tia fazia-as dançar com uma pinça enquanto tentava manter a nossa curiosidade à distancia para não nos queimarmos.
No final havia vários tabuleiros com canudinhos dourados e taças de doce de abobora a aromatizar toda a sala. Aí, finalmente já me deixavam ajudar. Com uma pequena colher de café e os cuidados de uma criança com muita paciência, ia cautelosamente enchendo os canudos com doce de abobora. Uma tia ensinou-me o truque uma vez, e repeti-o vezes sem conta, em casa da avô e em casa do tio Zé, que apesar de diabético não resistia a provar o doce da irmã todas as passagens de ano.
O truque consiste em encher o canudo até ao topo e quando o doce se preparar para sair e escorrer pelo canudo, bater gentilmente com o fundo numa superfície dura, como um prato ou a mesa para o doce descer. Assim, a parte de baixo, onde a massa é mais dura, fica cheiinha de doce, deixando a parte de cima vazia e estaladiça, ou então deixando-a com espaço para os mais gulosos, como eu, continuarem a deliciar-se.
… devo confessar que não foi nada fácil conseguir estes desenhos, apesar de serem objectos inanimados, num abrir e piscar de olhos, alguém se servia dos meus modelos e lá tinha que recomeçar.
Este pudim, não começou a ser desenhado assim, e quando o conclui creio que estava também a ser concluída a sua existência na verdade.
Estes pastéis este ano tiveram uma estranha existência… a tia num ímpeto guloso encheu-os o mais que pode. O resultado depois da passagem pelo forno assemelhava-se mais a sanduiches do que a pastéis. Mas só posso dizer isto aqui que ela não me ouve, na altura todos concordámos que estavam uma perfeição para acalmar a nervoseira que ia naquela cozinha!
Desculpem-me mas este deixa-me sem palavras.
Lindíssimo!
Obrigada tia, para completar os post gastronómicos está a faltar um dedicado às felisminas de Ranholas e Cascais.